A cor do amor

A paixão que veio vermelha,
se foi no preto da escuridão,
pra deixar uma saudade branca.
Lembranças tão cor-de-rosa,
do teu olhar meio mel.
Um verde assim, meio azulado.
Lembranças tão cor-de-rosa,
do meu sorriso amarelo,
quando de longe meu olhar
avistava o arco-íris ao seu redor.
São lembranças, tão cor-de-rosa,
daquela paixão vermelha
e do nosso desejo tão cor da pele. [...]

Desabafo sobre o fim da linha

Por esses dias lia uma revista e me deparei com a seguinte frase dita por Chico Buarque: 'Escrever é uma chatice'. Concordo, é terrível quando há a obrigação de que outro te entenda. Tudo tem que ser explicado nos mínimos detalhes e existir, pelo menos, coerência e coesão. Mas desabafos não.
Desabafos são os discuros envolvendo todos os pensamentos, sentimentos, sensações, que batem forte em poucos segundos. Desabafar é permitir que os outros vejam a sua desconstrução pessoal.
Nunca havia visto o 'fim da linha' tão de perto quanto essa semana. Embora não fosse totalmente íntimo, era perto o suficiente pra me fazer parar e olhar pra dentro como eu jamais havia feito. O 'fim da linha' é triste, doloroso e pra nós que ficamos, injusto. Totalmente injusto.
Há quem diga que pais não deveriam assistir ao 'fim da linha' dos filhos. Há filhos que dariam tudo pra ter o 'fim da linha' antes dos pais, por julgarem não conseguir viver sem. Injusto ou não, doloroso ou não, ele chega. E quando a gente menos espera.
Ao encarar a dura realidade de que aquele com o qual já se passaram inúmeros momentos maravilhosos, já não vai mais estar aqui pra passar conosco outros inúmeros momentos maravilhosos, é o que mais dói. Ver aquele que você costumava ver alegre, tranquilo, deitado em um lugar do qual não mais vai levantar, é a ficha caindo: game over.
E daí? Você recomeça? Não. Recomeçar, é de fato, algo que você não quer e não se julga com forças pra tanto. Você não chora porque não acredita, você dorme tranquilo porque acredita que tudo não passa de uma grande bobagem. O problema é quando a ficha cai. A ficha do fim da linha é o grande problema.
Quando a ficha cai, é justamente quando você passa a se sentir culpado por respirar, sentir, viver seus dias como costumava. Rir então, é um pecado mortal. Embora todos queiram se reerguer, o fim da linha de alguém, nos puxa pra baixo com uma força absurda, e o remédio mais necessário agora, é tempo.
Tempo pra tranformar grande parte da dor, em saudade. Tempo pra se acostumar com uma vida nova, embora isso não soe como algo fantástico. Tempo pra tocar a vida e fazer uma visita, quando a vontade bater, à nova casa desse alguém, embora você não possa vê-lo. Tempo pra pensar, pra aceitar, pra compreender que tudo isso é algo natural. Tempo pra lembrar que todo mundo tem um prazo de validade e uma tarefa xis pra ser feita por aqui. É a lei. Cumpriu sua tarefa, hora de ir embora. Prático, simples, frio. Mas é assim que funciona.
Ver o fim da linha de alguém querido, nos destrói. É quando, contra sua vontade, você se abre a todos os sentimentos existentes no mundo. Mas é só no fim da linha, que a gente percebe que poderia ter feito muito mais, simplesmente porque acreditávamos ter tempo suficiente restando.
É ele, o fim, que nos dá a ciência de que, pelo menos naquela hora, todos são iguais. Todos, ricos, pobres, mestiços, mulatos, brancos e afins, todos tem o mesmo fim da linha. É ele, que nos faz desmoronar por dentro e quando não mais suportar, mostrar nossa desconstrução. Eu, já havia desmoronado, mas ainda não havia mostrado, nem quando a ficha caiu. Eis que mostro a minha descontrução agora. E sim, sinto culpa por levar a vida normalmente diante do fato, mas isso passa. Tem que passar.
Saudade? A gente já sente. Tristeza? Não podia ser maior. Força? Eu tenho e tento transmitir pra quem não consegue ter agora. E mesmo que eu não me sinta a pessoa mais alto-astral do mundo agora, mesmo que eu esteja tentando ser forte pelos outros também, vão sempre valer, mais que tudo isso, todas as lições que você deixou.
Não, não fazia questão que todos me entendessem aqui. Disse e repito, escrever é pra ser entendido. Desabafos são avalanches, atropelam tudo. Mas se alguma forma, alguém me entendeu, começo a acreditar que sei organizar meus desabafos quando eles se descobrem textos. Mas se ninguém entendeu, não tem problema, o importante foi que eu fiz o que até agora não tinha conseguido: desabafar.