De Pequi pra Águia.

O mundo é mutável, as pessoas são mutáveis, os relacionamentos são mutáveis. Então, porque resistir tanto à mudanças? O medo da exposição do que se traz por dentro, às vezes nos transformam em inúmeros Pequis. Vários espalhados pelo mundo. Sorte daqueles que conseguirem chegar ao nosso núcleo.
Parênteses: Pequi é um fruto cheio de espinhos por dentro e de núcleo doce.
Já dizia a maravilhosa Martha Medeiros, "desejes alguma mudança. Uma que seja necessária e não te pese na alma". Ultimamente andei percebendo que precisava desejar isso. Precisava desejar ser mais eu e menos o que planejaram pra mim. Precisava dar voz as inúmeras "eus" que gritavam aqui dentro. Queria dar voz ao eu mulherzinha, ao eu mulherão, ao eu carinhosa, ao eu rebelde. Queria dar voz àquela que sempre pediu os holofotes, mas que sempre os teve negado: EU.
É duro ser um Pequi. É duro ouvir que a gente espeta só de alguém chegar perto. Mais duro ainda, é saber que isso é auto defesa, porque um dia você foi só núcleo e fizeram de você um suco. O trocadilho é péssimo, mas é válido. Se você não entendeu, recomece o texto. Do contrário, garanto que se identificou.
Todo mundo tem um personagem e faz uso deles 99% de seu tempo. O garanhão, a descolada, a desgarrada, o desentendido. Todo mundo tenta ser aquilo que lhe convém. Ou o oposto daquele (a) que deita em seu travesseiro. E personagens são criados em uma soma de bofetadas, incertezas e inseguranças que juntamos durante nossas vidas. E pode dizer que eu tô ficando louca e que não tenho mais o que fazer. Mas a verdade é uma só: você pode fazer qualquer um duvidar se o que você aparenta é ou não um personagem. Mas 'ninguém nunca tem dúvidas sobre si mesmo'. Você sabe o que te constrói e o que te corrói. E para não corroer, buscamos uma mudança. De pensamento, de atitude. E não digo que é fácil. Mudar é duro, mas pode ser tão doce quanto seu núcleo. É melhor não dar chance à corrosão.
Sabe, a águia depois de um certo tempo de vida, tem uma escolha a fazer: ou vira presa fácil, ou se dá direito a um retiro. Por quê? Porque depois de um tempo, 35 anos exatamente, seu bico naturalmente vai encurvando, juntamente com suas garras e suas penas se tornam pesadas. Então ela escolhe: ou dá sopa pra malandro ou então se esconde no lugar mais alto que puder e começa sua transformação.
A águia quebra seu próprio bico e ele se regenera. Com o bico regenerado, ela arranca as próprias garras, que se regeneram. Daí, ela arranca todas as penas velhas que pesam em seu corpo. Resultado: uma águia novinha em folha.
Não estou dizendo para ninguém sair por aí se quebrando esperando regeneração. Estou dizendo que somos frutos e não águias. Estou dizendo que você deveria se inspirar nela, como eu ando fazendo.
Existe uma hora na vida de cada um em que paramos para decidir se vamos virar alvo de pisões, chutes e apunhaladas, ou se vamos nos retirar. E se retirar não significa fugir da raia. Significa entrar nela pra valer. Significa criar coragem para remover os espinhos da sua casca e mostrar que seu núcleo é doce sim, não importa o que já tenham feito dele. E isso dói. Talvez mais que apanhar da vida. Mas é melhor apanhar por apanhar ou apanhar sabendo que também bateu? Ninguém nuca vai ser isento de supresas ou do acaso. Mas é bom se sentir fortalecido por si só, sem uma proteção por fora. E se retirar significa exatamente isso: se fortalecer. Fazer uma mudança que não lhe pese na alma, muito pelo contrário...que a alivie.
Eu me escondi no lugar mais alto que pude para começar a extrair cada espinho que se transformou na minha casca. Porque por mais que ser um fruto espinhoso seja divertido, prefiro ser uma águia.

Something old, something new.

É fim de ano. Faltam dias para o ano mudar, o mês mudar e as nossas esperanças ganharem muito gás para existir.
É época de rever nossos atos e refletir sobre tudo o que nos aconteceu durante o ano. Comemorar o que foi bom e aprender com o que foi ruim. Nos parabenizar pelos acertos e não repetir os erros cometidos.
É época de fazer lista de verbos para o próximo ano.
"Perdoe. Sorria. Ame. Se entregue. Decida. Volte atrás. Se orgulhe. Não deixe o orgulho dominar. Cuide de quem te quer bem. Aproxime. Resista. Sobreviva, às vezes. Viva, sempre. Estude. Trabalhe. Procure. Se informe. Vá atrás. Corra. Fuja. Encare. Chore. Transforme o velho no novo. Sorria novamente. Pule. Grite. Aprenda a falar na hora certa. Aprenda a ouvir mais. Dance. Seja bonito aos seus olhos, para ser para os olhos do mundo. Aplauda. Reprima. Cante. Ame, ontem, hoje e amanhã. De mais uma chance. Dê oportunidades. Se abra para o mundo. Feche as portas na hora certa. Se defenda. Ataque. Jogue limpo. Seja você. Defenda suas opiniões. Compreenda as alheias. Entenda. Aceite as escolhas. Escolha o caminho. Mas acima de tudo, seja feliz.

Em casa.

A juíza das minhas loucuras,
é severa demais pra me inocentar.
Não cobra depoimentos,
nem sopra os ferimentos da tortura.
Simplesmente me decreta culpada.
Pena? Prisão domiciliar.

If that.

Não sabia o que fazer. Pegou o carro e saiu por aí. No meio do caminho não tinha uma pedra. Não tinha uma pedra no meio o caminho. Tinha uma encruzilhada. Direita ou esquerda?

Sua mãe a havia levado para experimentar vestidos de formatura. Gostou de dois. Azul ou verde?

Se apaixonou pelo cara mais descolado e galinha do colégio. Gostava do nerd e mais fofo do colégio também. Ficar com quem?

Foi pedida em namoro. Aceitar ou não?

Escolhas. A vida é toda feita de escolhas. Às vezes você acerta em cheio, às vezes erra da pior forma. Mas o que mais atormenta, independente do que se escolher, é a soma das palavras: "E se?"

Escolheu a esquerda. Mas e se o caminho da direita fosse mais florido?
Levou o vestido azul. Mas e se o verde fosse escolhido, não ficaria mais bonita?
Ficou com o galinha descolado. E se tivesse escolhido o outro?
Não aceitou o pedido de namoro. Mas e se tivesse aceitado? Teria sido ele o homem da sua vida?

Engraçado. Por mais que se esteja 100% seguro do que vai escolher, sempre se pega pensando no "e se?". É assim desde que mundo é mundo. Como diz o ditado, "a grama do vizinho é sempre mais verde que a nossa". Mas não é.
Independente do porquê, uma escolha é feita baseada em tudo que se tem e, portanto, é sempre a melhor que podemos fazer. E se não for? Sempre há tempo de mudar.

Azar é sorte

Tudo empilhado. Uma lista de tarefas a serem feitas e nenhum (eu disse nenhum!) "ok!" para me tranquilizar. A culpa é minha, eu assumo. Tinha todo o tempo do mundo para tudo isso e deixei que tudo se empilhasse. Azar, o jeito é correr.
Hoje, acordo às 8:00, tendo ido dormir às 1:14 da manhã. E mesmo assim, o sono veio forçado. Na cabeça, a pilha de tarefas se colocava por ordem de importância. E tudo era importante. E tudo era pra ontem. E eu não conseguia dormir.
Sem tempo. Eu fiquei sem tempo, mesmo com todo o tempo que eu tinha. Agora, coloco os óculos vermelhos, sento na cama, me enrolo entre pilhas de papéis, cadernos, anotações, vídeos, computador e pesquisas. Sou muito enrolada e me odeio por isso. Azar, o jeito é correr.
E eu me pergunto por quê. Por que raios tudo está quase um caos?
Empurrei com a barriga, me respondo. O mal do ser humano é se firmar na incerta certeza de que o amanhã vai sair como o planejado (e tomaaaaaaaara que ele saia!). Mas na verdade, eu não deixei tudo enrolado só por ter a 'certeza' de que teria meu amanhã. Deixei porque tinha a certeza de que todo o tempo do mundo que eu tinha livre, era todo o tempo que eu não aproveitava mais. Deixei tudo enrolado, pra ter a certeza de que eu não iria enlouquecer. Deixei tudo um caos, pra me colorir. A mim e as relações que sustento. E mesmo que a loucura e o desespero que me batem agora, não chegam ao mindinho da loucura em que eu estava caindo. Sorte, o jeito é correr.

O traje da noite

Era pra ser naquela noite. Lindo, estontanteantemente lindo. Preto, porque combinava com o cabelo dela. Isso foi ele quem disse. Uma fortuna economizada, por ele.
Sim, ele representava muito mais que o traje ideal. Representava a vontade de se sentir dotada de uma beleza nocauteante e uma felicidade absurda. Por água abaixo. Na fita métrica alheia, talvez ela meça menos que outras coisas.
Então, fica por lá. Lá dentro da capa, pendurado no armário, até quando lhe for útil de novo. Até quando essa felicidade absurda, voltar a fazer, dela, palco de seu espetáculo. Pena que só acontecesse uma vez por ano.

Bateria recarregada nos braços de quem se quer bem

Um vazio que nada conseguia suprir.
A sensação de estar em um lugar ao qual não se pertence.
Um querer enorme de gritar e se esconder, ainda mais.
Uma vontade monstruosa de um abraço dentro do qual, se sentisse segurança.
Um convite.
Um telefonema de confirmação.
Uma adaptação de planos.
Finalmente, a sensação de estar em casa.
Finalmente o abraço que fazia falta.
Finalmente o sorriso mais sincero dos últimos meses.
Finalmente uma felicidade nada mascarada.
Finalmente um grito dado.
Finalmente a vontade de não querer mais se manter escondido.
Finalmente, baterias recarregadas.
Finalmente estava aonde pertencia, no meio dos iguais, no meio dos que não precisam perguntar se está tudo bem pra saber tudo que se passa com você, mesmo que a última vez que tenham se encontrado, tenha sido antes da virada do ano.
Finalmente, um paz invadia de forma tão grande, que tudo tinha ganhado cor novamente.
Uma conversa aqui, outra ali.
Uma brincadeira idiota entre uma bebida e outra.
Um pôr-do-sol que não se vê em qualquer lugar.
Elogios que pela primeira vez em muito tempo, pareciam de verdade. Sinceridade.
Mil fotos. Se não mil, dezenas que valeram como milhares.
Músicas totalmente no nosso estilo.
Uma debruçada no muro e um 'então, me conta as novidades?'
Mil segredos em dois minutos.
Mil palavras em um segundo.
Milhões de histórias em várias horas.
Mil abraços por minuto.
Um milhão de vezes repetindo 'cara, eu tava sentindo sua falta!'
A combinação do próximo encontro.
A nostalgia de todos os dias juntos.
Éramos mais de trinta. Éramos 1336. Não, éramos e somos ainda, um só.