Carta à você, Carnaval.

Olha, honestamente cansei. Cansei de todo ano você vir todo animadinho, com confete e serpentina pular ao redor de mim. Não suporto sua gandaia rotineira.
Os que gostam de você, te defendem com unhas e dentes. Dizem que 'cair na gandaia' sempre foi uma característica sua, mas que você é também bem tradicional e que o que quer na verdade, é a felicidade de todo mundo.
Sabe o que eu acho? Que você é a maior enganação de todas as enganações. Fica por pouco tempo, dá a leve sensação de que o mundo é mais colorido e, passado os três dias, tudo fica cinzento novamente. Você é uma máscara, Carnaval. É um folião cafona que acredita que o mundo é uma eterna folia. Você cultiva o desprendimento. Não, eu não quero você, Carnaval.
Você realmente acredita, que é a coisa mais perfeita que há na Terra. Desculpa ser a pessoa que lhe diz isso, mas você é cafona, Carnaval. Acha que a vida é uma folia constante. Você é um folguedo um tanto idiota eu diria, Carnaval. O que você pensa da vida?
Você nunca teve um relacionamento duradouro. Nunca veio, sem trazer problemas. Hoje em dia então, você sempre traz contigo preocupação.
Eu sei que as pessoas gostam de você, Carnaval. Eu também gostava. Até parar pra pensar duas vezes sobre você. Cansei das suas repetitivas ações, do seu 'olhar de folião', que no final das contas...só traz solidão.
Talvez eu voltasse a gostar de você, Carnaval. Mas acho que só se você me propusesse algo novo. Desde que te conheço, você não mudou nada. Nem quando anunciou que iria mudar. Você gosta das mesmas músicas, da mesma 'falsa liberdade' que sempre gostou, da mesma festa. O mundo tem outras formas de festa. Basta saber procurar.
Eu me pergunto, Carnaval, se toda essa sua alegria, é pra esconder algo que aí dentro lhe corrói. Ou se você simplesmente, é assim...um tanto tosco. Você canta pra não chorar? Seu sorriso é máscara? Você é Arlequim, que chora pelo amor de uma Colombina? Ou você é realmente assim...enganador de si mesmo?
Conheço cada vez mais pessoas que se sentem incomodadas com você por perto, Carnaval. Pessoas que fogem de suas brincadeiras, que lhe acham um tanto imbecil, que acreditam que você, é algo totalmente dispensável.
Você divide as pessoas, Carnaval. Uns vão em cima do seu carro alegórico, outros que corram atrás do seu trio. Depende da sua vontade, do que é conveniente pra você. Se você precisa do que está correndo trás do trio, você o coloca no carro alegórico. E quando não mais precisar, ele que desça novamente.
Você quer um amor por dia, tarde e noite. Você quer um amor, que não suba a serra e nem telefone no dia seguinte. Você quer rir, beber, suar. Você quer aproveitar. E quando o seu tempo passa, o que lhe resta, Carnaval? É essa sua idéia de curtir a vida, de ser livre?
Ah Carnaval, eu acho você tão inseguro. Cada ano lança uma nova propaganda, um novo tema pra seus desfiles. Tudo isso na tentativa de agradar a todos e ser 'diferente'. Você não é diferente, Carnaval. Só acha que é. Tudo muda no mundo, porque você não muda nadinha?
Falo tudo isso aqui pra você, Carnaval, porque a harmonia vem da evolução e não das alegorias. E eu precisava rodar a minha baiana, pra atravessar de vez a avenida. Evolua, Carnaval. Quem sabe assim, eu não volto a ser uma foliã sua?

Aguardo mudanças,
Beijos, até o ano que vem.