'Strip-tease'

Eles saíram pra jantar. Dali, resolveram ir para o apartamento dele. Seus nervos estavam a flor da pele. Nunca havia se sentido assim antes. Parou na porta. As mãos suadas, entregavam seu nervosismo. Seria sua primeira vez. Não a dele, mas a sua.
O esmalte vermelho, que lhe dava a superficial sensação de poder, já estava descascado nas unhas e as mesmas, roídas. Nada que a fizesse perder o controle que tinha sobre ele. Ela inflou o peito. Era agora ou nunca. Era ele, ela tinha certeza. Entrou.
Ele sabia que a tinha nas mãos. Não era diferente ter uma mulher em seu apartamento. Ele gostava dela, mas não se entregava como ela fazia. Tinha seus passos calculados, já sabia o que e como fazer. Ofereceu-lhe um drink, que ela rejeitou.
Ele perguntou se ela queria ouvir algo, ela disse não. Ele perguntou se ela queria sentar, ela educadamente dispensou. Estava nervosa demais, pra essas pequenas coisas que só aumentariam seu nervosismo. Queria ir direto ao ponto e não sabia como dizer isso.
Ele perguntou se estava tudo bem e o que poderia fazer por ela. Ela respondeu que não queria preliminares. Não, nem ela acreditou que respondeu isso, mas já o tinha feito. Ele ficou nervoso. Seus planos não funcionavam e não sabia ir direto ao ponto.Ele pensou em adiar. Já não tinha muita vontade mesmo. Podia ter quem quisesse, por que perder tempo com ela?
Ela já sabia o que ele pensava. Embora fosse inexperiente nisso, era observadora e sabia ver as pessoas através dos olhos. Pediu que ele sentasse. Ele o fez, ela começou.
Enquanto tirava a primeira peça, disse: ''Eu faço de conta que não me importo com você. Faço de conta que não te vejo, não te escuto, não te desejo, não te amo. Ignoro as coisas lindas que você diz, pra não te fazer ter segurança demais, porque tudo que é demais, estraga. Sei que você sente algo, mas não assume. Sei que você é assim. Mas você é a pessoa mais especial que conheci e agora não me importo em não ser correspondida''. Assim, deixou cair a máscara.
Depois, se despiu da arrogância: '' Achei que nunca chegaria até aqui. Roí as unhas, queria correr e não voltar. Mas você é tudo que eu vejo, é o ar que eu respiro, é as músicas que eu ouço e o deslumbramento que tenho, é com você que sinto''. A arrogância ficou espalhada no chão da sala de estar.
Desabotoando a vergonha, declarou: ''Imagino todos os dias, o dia de hoje. Eu, você e mais nada nem ninguém. Era tudo o que eu queria pra mim. Você é tudo que eu quero pra mim''.
E tirando por último o medo, ela finalizou: ''Queria dividir tudo o que tenho com você. Queria ser sua e queria que isso fosse recíproco. Queria você na minha vida. Mas sei que você não quer. Sei que você não sabe o que é amar. Sei que você não me ama, ou se ama é orgulhoso demais pra admitir. Queria que você soubesse que é amado, que tem alguém que se importa. Agora você já sabe. E agora, eu posso ir embora. Cumpri o que queria. Consegui me despir pra você. Paramos aqui. E quando você decidir o que sente...se um dia você me amar do mesmo jeito, me avise, que eu volto e daí continuamos daqui''.
E saiu, nua. Sentindo-se mais mulher do que nunca.




Adaptação do texto de Martha Medeiros.