Dor. Mas aplausos, por favor.

Era noite, como é noite em qualquer dia. Havia sido dia, como é dia todo dia. Na verdade, havia sido um dia bonito. Mas a noite trouxe consigo um véu de água tão forte, que parei de acreditar ser um véu, pra passar a acreditar ser lágrima. Muita lágrima.
Era chuva que caía. Mas, como eu disse, não era só chuva, era lágrima também. Lágrimas pela casa perdida, por ver na TV a dor do próximo, pelo amigo desaparecido, pelo amor da vida de alguém, pela família perdida, pela falta de amparo, pela falta de cor de uma noite que tinha potencial de ser bonita como havia sido o dia. Não foi. Foi uma noite de quedas.
Quedas de casas, quedas de vidas, quedas de sonhos. Todos arrastados por uma força contra a qual ninguém tem poder. Nem eu, nem você, nem eles. Ninguém.
Uns saem milagrosamente com vida. Renascem e fazem renascer quem por eles espera. Outros, se vão e levam parte de quem fica. Tudo desmoronou em questão de segundos. Tudo desceu morro abaixo, ou inundou em questão de segundos. Vida em questão de segundos.
O desespero leva uns à atitudes nada perseverantes. Colaboram para instalação do caos. Pobres de espírito, desesperados além do limite. Levam culpa? Alguém TEM culpa? Não. Ninguém tem, mas todo mundo tem. Mas isso não vem muito ao caso.
Vem ao caso a solidariedade, o espírito de equipe, o lado mais humano do ser humano. Em meio à tantas tragédias, há de se ressaltar a beleza dos gestos simples como um abraço naquele que sobreviveu, ou naquele que precisa de um ombro. Há de se ressaltar, a lágrima daqueles que se comovem pela perda de quem não conhece, mas que agora passa a ser quase um irmão. Há de se ressaltar a mobilização de um mundo de gente que abre seus armários, separa roupas, mantimentos e DOA, com o MAIOR desprendimento e a MAIS SINCERA vontade de ajudar.
Há de se ressaltar que na dor, todo mundo se fez um só. Há de se ressaltar, que ainda há esperança. Pra quem voltou, pra quem ficou, pra quem vai vir, pra quem ainda não saiu debaixo da terra, pra quem perdeu tudo, pra quem não perdeu nada e até mesmo pra quem se foi, há a esperança de que os pequenos gestos consigam abrigar um mundo, nos braços confortantes do mundo inteiro.