Something old, something new.

É fim de ano. Faltam dias para o ano mudar, o mês mudar e as nossas esperanças ganharem muito gás para existir.
É época de rever nossos atos e refletir sobre tudo o que nos aconteceu durante o ano. Comemorar o que foi bom e aprender com o que foi ruim. Nos parabenizar pelos acertos e não repetir os erros cometidos.
É época de fazer lista de verbos para o próximo ano.
"Perdoe. Sorria. Ame. Se entregue. Decida. Volte atrás. Se orgulhe. Não deixe o orgulho dominar. Cuide de quem te quer bem. Aproxime. Resista. Sobreviva, às vezes. Viva, sempre. Estude. Trabalhe. Procure. Se informe. Vá atrás. Corra. Fuja. Encare. Chore. Transforme o velho no novo. Sorria novamente. Pule. Grite. Aprenda a falar na hora certa. Aprenda a ouvir mais. Dance. Seja bonito aos seus olhos, para ser para os olhos do mundo. Aplauda. Reprima. Cante. Ame, ontem, hoje e amanhã. De mais uma chance. Dê oportunidades. Se abra para o mundo. Feche as portas na hora certa. Se defenda. Ataque. Jogue limpo. Seja você. Defenda suas opiniões. Compreenda as alheias. Entenda. Aceite as escolhas. Escolha o caminho. Mas acima de tudo, seja feliz.

Em casa.

A juíza das minhas loucuras,
é severa demais pra me inocentar.
Não cobra depoimentos,
nem sopra os ferimentos da tortura.
Simplesmente me decreta culpada.
Pena? Prisão domiciliar.

If that.

Não sabia o que fazer. Pegou o carro e saiu por aí. No meio do caminho não tinha uma pedra. Não tinha uma pedra no meio o caminho. Tinha uma encruzilhada. Direita ou esquerda?

Sua mãe a havia levado para experimentar vestidos de formatura. Gostou de dois. Azul ou verde?

Se apaixonou pelo cara mais descolado e galinha do colégio. Gostava do nerd e mais fofo do colégio também. Ficar com quem?

Foi pedida em namoro. Aceitar ou não?

Escolhas. A vida é toda feita de escolhas. Às vezes você acerta em cheio, às vezes erra da pior forma. Mas o que mais atormenta, independente do que se escolher, é a soma das palavras: "E se?"

Escolheu a esquerda. Mas e se o caminho da direita fosse mais florido?
Levou o vestido azul. Mas e se o verde fosse escolhido, não ficaria mais bonita?
Ficou com o galinha descolado. E se tivesse escolhido o outro?
Não aceitou o pedido de namoro. Mas e se tivesse aceitado? Teria sido ele o homem da sua vida?

Engraçado. Por mais que se esteja 100% seguro do que vai escolher, sempre se pega pensando no "e se?". É assim desde que mundo é mundo. Como diz o ditado, "a grama do vizinho é sempre mais verde que a nossa". Mas não é.
Independente do porquê, uma escolha é feita baseada em tudo que se tem e, portanto, é sempre a melhor que podemos fazer. E se não for? Sempre há tempo de mudar.

Azar é sorte

Tudo empilhado. Uma lista de tarefas a serem feitas e nenhum (eu disse nenhum!) "ok!" para me tranquilizar. A culpa é minha, eu assumo. Tinha todo o tempo do mundo para tudo isso e deixei que tudo se empilhasse. Azar, o jeito é correr.
Hoje, acordo às 8:00, tendo ido dormir às 1:14 da manhã. E mesmo assim, o sono veio forçado. Na cabeça, a pilha de tarefas se colocava por ordem de importância. E tudo era importante. E tudo era pra ontem. E eu não conseguia dormir.
Sem tempo. Eu fiquei sem tempo, mesmo com todo o tempo que eu tinha. Agora, coloco os óculos vermelhos, sento na cama, me enrolo entre pilhas de papéis, cadernos, anotações, vídeos, computador e pesquisas. Sou muito enrolada e me odeio por isso. Azar, o jeito é correr.
E eu me pergunto por quê. Por que raios tudo está quase um caos?
Empurrei com a barriga, me respondo. O mal do ser humano é se firmar na incerta certeza de que o amanhã vai sair como o planejado (e tomaaaaaaaara que ele saia!). Mas na verdade, eu não deixei tudo enrolado só por ter a 'certeza' de que teria meu amanhã. Deixei porque tinha a certeza de que todo o tempo do mundo que eu tinha livre, era todo o tempo que eu não aproveitava mais. Deixei tudo enrolado, pra ter a certeza de que eu não iria enlouquecer. Deixei tudo um caos, pra me colorir. A mim e as relações que sustento. E mesmo que a loucura e o desespero que me batem agora, não chegam ao mindinho da loucura em que eu estava caindo. Sorte, o jeito é correr.

O traje da noite

Era pra ser naquela noite. Lindo, estontanteantemente lindo. Preto, porque combinava com o cabelo dela. Isso foi ele quem disse. Uma fortuna economizada, por ele.
Sim, ele representava muito mais que o traje ideal. Representava a vontade de se sentir dotada de uma beleza nocauteante e uma felicidade absurda. Por água abaixo. Na fita métrica alheia, talvez ela meça menos que outras coisas.
Então, fica por lá. Lá dentro da capa, pendurado no armário, até quando lhe for útil de novo. Até quando essa felicidade absurda, voltar a fazer, dela, palco de seu espetáculo. Pena que só acontecesse uma vez por ano.

Bateria recarregada nos braços de quem se quer bem

Um vazio que nada conseguia suprir.
A sensação de estar em um lugar ao qual não se pertence.
Um querer enorme de gritar e se esconder, ainda mais.
Uma vontade monstruosa de um abraço dentro do qual, se sentisse segurança.
Um convite.
Um telefonema de confirmação.
Uma adaptação de planos.
Finalmente, a sensação de estar em casa.
Finalmente o abraço que fazia falta.
Finalmente o sorriso mais sincero dos últimos meses.
Finalmente uma felicidade nada mascarada.
Finalmente um grito dado.
Finalmente a vontade de não querer mais se manter escondido.
Finalmente, baterias recarregadas.
Finalmente estava aonde pertencia, no meio dos iguais, no meio dos que não precisam perguntar se está tudo bem pra saber tudo que se passa com você, mesmo que a última vez que tenham se encontrado, tenha sido antes da virada do ano.
Finalmente, um paz invadia de forma tão grande, que tudo tinha ganhado cor novamente.
Uma conversa aqui, outra ali.
Uma brincadeira idiota entre uma bebida e outra.
Um pôr-do-sol que não se vê em qualquer lugar.
Elogios que pela primeira vez em muito tempo, pareciam de verdade. Sinceridade.
Mil fotos. Se não mil, dezenas que valeram como milhares.
Músicas totalmente no nosso estilo.
Uma debruçada no muro e um 'então, me conta as novidades?'
Mil segredos em dois minutos.
Mil palavras em um segundo.
Milhões de histórias em várias horas.
Mil abraços por minuto.
Um milhão de vezes repetindo 'cara, eu tava sentindo sua falta!'
A combinação do próximo encontro.
A nostalgia de todos os dias juntos.
Éramos mais de trinta. Éramos 1336. Não, éramos e somos ainda, um só.

Dor. Mas aplausos, por favor.

Era noite, como é noite em qualquer dia. Havia sido dia, como é dia todo dia. Na verdade, havia sido um dia bonito. Mas a noite trouxe consigo um véu de água tão forte, que parei de acreditar ser um véu, pra passar a acreditar ser lágrima. Muita lágrima.
Era chuva que caía. Mas, como eu disse, não era só chuva, era lágrima também. Lágrimas pela casa perdida, por ver na TV a dor do próximo, pelo amigo desaparecido, pelo amor da vida de alguém, pela família perdida, pela falta de amparo, pela falta de cor de uma noite que tinha potencial de ser bonita como havia sido o dia. Não foi. Foi uma noite de quedas.
Quedas de casas, quedas de vidas, quedas de sonhos. Todos arrastados por uma força contra a qual ninguém tem poder. Nem eu, nem você, nem eles. Ninguém.
Uns saem milagrosamente com vida. Renascem e fazem renascer quem por eles espera. Outros, se vão e levam parte de quem fica. Tudo desmoronou em questão de segundos. Tudo desceu morro abaixo, ou inundou em questão de segundos. Vida em questão de segundos.
O desespero leva uns à atitudes nada perseverantes. Colaboram para instalação do caos. Pobres de espírito, desesperados além do limite. Levam culpa? Alguém TEM culpa? Não. Ninguém tem, mas todo mundo tem. Mas isso não vem muito ao caso.
Vem ao caso a solidariedade, o espírito de equipe, o lado mais humano do ser humano. Em meio à tantas tragédias, há de se ressaltar a beleza dos gestos simples como um abraço naquele que sobreviveu, ou naquele que precisa de um ombro. Há de se ressaltar, a lágrima daqueles que se comovem pela perda de quem não conhece, mas que agora passa a ser quase um irmão. Há de se ressaltar a mobilização de um mundo de gente que abre seus armários, separa roupas, mantimentos e DOA, com o MAIOR desprendimento e a MAIS SINCERA vontade de ajudar.
Há de se ressaltar que na dor, todo mundo se fez um só. Há de se ressaltar, que ainda há esperança. Pra quem voltou, pra quem ficou, pra quem vai vir, pra quem ainda não saiu debaixo da terra, pra quem perdeu tudo, pra quem não perdeu nada e até mesmo pra quem se foi, há a esperança de que os pequenos gestos consigam abrigar um mundo, nos braços confortantes do mundo inteiro.

A cor do amor

A paixão que veio vermelha,
se foi no preto da escuridão,
pra deixar uma saudade branca.
Lembranças tão cor-de-rosa,
do teu olhar meio mel.
Um verde assim, meio azulado.
Lembranças tão cor-de-rosa,
do meu sorriso amarelo,
quando de longe meu olhar
avistava o arco-íris ao seu redor.
São lembranças, tão cor-de-rosa,
daquela paixão vermelha
e do nosso desejo tão cor da pele. [...]

Desabafo sobre o fim da linha

Por esses dias lia uma revista e me deparei com a seguinte frase dita por Chico Buarque: 'Escrever é uma chatice'. Concordo, é terrível quando há a obrigação de que outro te entenda. Tudo tem que ser explicado nos mínimos detalhes e existir, pelo menos, coerência e coesão. Mas desabafos não.
Desabafos são os discuros envolvendo todos os pensamentos, sentimentos, sensações, que batem forte em poucos segundos. Desabafar é permitir que os outros vejam a sua desconstrução pessoal.
Nunca havia visto o 'fim da linha' tão de perto quanto essa semana. Embora não fosse totalmente íntimo, era perto o suficiente pra me fazer parar e olhar pra dentro como eu jamais havia feito. O 'fim da linha' é triste, doloroso e pra nós que ficamos, injusto. Totalmente injusto.
Há quem diga que pais não deveriam assistir ao 'fim da linha' dos filhos. Há filhos que dariam tudo pra ter o 'fim da linha' antes dos pais, por julgarem não conseguir viver sem. Injusto ou não, doloroso ou não, ele chega. E quando a gente menos espera.
Ao encarar a dura realidade de que aquele com o qual já se passaram inúmeros momentos maravilhosos, já não vai mais estar aqui pra passar conosco outros inúmeros momentos maravilhosos, é o que mais dói. Ver aquele que você costumava ver alegre, tranquilo, deitado em um lugar do qual não mais vai levantar, é a ficha caindo: game over.
E daí? Você recomeça? Não. Recomeçar, é de fato, algo que você não quer e não se julga com forças pra tanto. Você não chora porque não acredita, você dorme tranquilo porque acredita que tudo não passa de uma grande bobagem. O problema é quando a ficha cai. A ficha do fim da linha é o grande problema.
Quando a ficha cai, é justamente quando você passa a se sentir culpado por respirar, sentir, viver seus dias como costumava. Rir então, é um pecado mortal. Embora todos queiram se reerguer, o fim da linha de alguém, nos puxa pra baixo com uma força absurda, e o remédio mais necessário agora, é tempo.
Tempo pra tranformar grande parte da dor, em saudade. Tempo pra se acostumar com uma vida nova, embora isso não soe como algo fantástico. Tempo pra tocar a vida e fazer uma visita, quando a vontade bater, à nova casa desse alguém, embora você não possa vê-lo. Tempo pra pensar, pra aceitar, pra compreender que tudo isso é algo natural. Tempo pra lembrar que todo mundo tem um prazo de validade e uma tarefa xis pra ser feita por aqui. É a lei. Cumpriu sua tarefa, hora de ir embora. Prático, simples, frio. Mas é assim que funciona.
Ver o fim da linha de alguém querido, nos destrói. É quando, contra sua vontade, você se abre a todos os sentimentos existentes no mundo. Mas é só no fim da linha, que a gente percebe que poderia ter feito muito mais, simplesmente porque acreditávamos ter tempo suficiente restando.
É ele, o fim, que nos dá a ciência de que, pelo menos naquela hora, todos são iguais. Todos, ricos, pobres, mestiços, mulatos, brancos e afins, todos tem o mesmo fim da linha. É ele, que nos faz desmoronar por dentro e quando não mais suportar, mostrar nossa desconstrução. Eu, já havia desmoronado, mas ainda não havia mostrado, nem quando a ficha caiu. Eis que mostro a minha descontrução agora. E sim, sinto culpa por levar a vida normalmente diante do fato, mas isso passa. Tem que passar.
Saudade? A gente já sente. Tristeza? Não podia ser maior. Força? Eu tenho e tento transmitir pra quem não consegue ter agora. E mesmo que eu não me sinta a pessoa mais alto-astral do mundo agora, mesmo que eu esteja tentando ser forte pelos outros também, vão sempre valer, mais que tudo isso, todas as lições que você deixou.
Não, não fazia questão que todos me entendessem aqui. Disse e repito, escrever é pra ser entendido. Desabafos são avalanches, atropelam tudo. Mas se alguma forma, alguém me entendeu, começo a acreditar que sei organizar meus desabafos quando eles se descobrem textos. Mas se ninguém entendeu, não tem problema, o importante foi que eu fiz o que até agora não tinha conseguido: desabafar.